Este projeto tem como inspiração o discurso do escritor Moçambicano Mia Couto nas Conferências do Estoril de 2011, intitulado “Murar o Medo“.

Este Projeto Artístico tem como objetivo reunir estudantes e artistas (street art, escultura, cinema, fotografia, poesia, etc) e sensibilizar a Juventude para algumas das questões internacionais mais prementes, como Educação, Desigualdade, Direitos Humanos, o Desemprego, Sustentabilidade, entre outros.

Estes temas estão relacionados com “Medos Globais” e pretende-se através da discussão de ideias criar mais consciência através da arte como forma de conter esses medos e desenvolver novas formas de respostas locais baseadas na visão dos jovens.

Pretendemos ter cerca de 50/70 estudantes, não necessariamente da área de Artes, em grupos de 10 por temática a trabalhar diretamente com um artista. Queremos dar oportunidade a jovens de diferentes contextos religiosos, sociais, económicos, provenientes de Escolas Públicas e Privadas, promovendo o respeito pelo interculturalidade, desenvolvendo trabalho em rede, e encorajando o seu interesse, proporcionando acesso direto às Conferências do Estoril.

Temáticas gerais (podendo ser incluídas outras mediante interesse):

• Terror / Segurança Mundial
• Geografias do medo: Oriente vs Ocidente
• Armas / Inimigos / Guerra
• Ideologia / Crença / Religião
• Ameaças Globais / Liberdades Individuais / Segurança Mundial
• Clima / Demografia / Epidemias / Fome
• Direitos Humanos / Violência Física e Sexual sobre as mulheres
• Crise Financeira / Desemprego

Público-Alvo: Jovens dos 17 aos 25 anos

Prazos:

Prazo de candidatura  Até dia 28 de fevereiro ou lotação de vagas 
Entrevistas  Após receção de candidaturas 
Comunicação dos jovens selecionados Março 2015

 

Os artistas do projeto| Perfis:

Para este projeto iremos contar com a participação de 4 artistas do Cidadela Art District: Paulo Brighenti, Paulo Arraiano, Joana Arez e João Paulo Serafim, bem como com 2 artistas que irão desenvolver o seu trabalho artistico na Cercica:  Filipe Romão e Daniela Gomes. Cada artista vai trabalhar com um grupo de jovens e coordenar o trabalho artistico a ser desenvolvido.

Fica a conhecer estes artistas:

Paulo Brighenti

Artista do Cidadela art District

Facebook

 

Paulo Arraiano

Artista do Cidadela Art District

Website

Facebook

 

Joana Arez

Biografia

Website

Facebook

 

João Paulo Serafim

Biografia

Website

Apresentação

 

Filipe Romão

Biografia

 

Daniela Gomes

Biografia

MURAR O MEDO de MIA COUTO

"O medo foi um dos meus primeiros mestres.

Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios.

Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpatico avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano.

Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória.

A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro.

Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias.

O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência.

Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento?

Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar?

Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi?

Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra.

Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção pequena do que se gasta em armamento.

A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Num planeta que imaginamos como uma única aldeia, a realidade mais globalizada é a miséria.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida.

Não há aqui nenhum laivo de feminismo, nenhum paternalismo dos que dizem cuidar dos chamados grupos vulneráveis. A verdade é que sobre metade das pessoas que estão nesta sala pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo.

Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos.

Mas não há hoje muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas aprendemos a reduzir os sonhos e esperanças para um tamanho aceitável.

Acerca dessa histeria colectiva, Eduardo Galeano escreveu o seguinte:

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não têm medo da fome, têm medo da comida.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe."

Aqui está o rascunho do discurso de Mia Couto